Especialistas alertam para o “esquecimento histórico” e criticam a inação política face ao risco real de um sismo de grande magnitude em Lisboa e no Algarve.
A pergunta não é “se”, mas “quando”. Portugal vive num intervalo de tempo geológico que, segundo especialistas, nos aproxima perigosamente de um novo evento sísmico de grande escala. Num debate recente no podcast Bitalk, o geólogo e comunicador de ciência Sérgio Esperancinha lançou um alerta severo: a capital portuguesa e o país não estão preparados para o que a terra, inevitavelmente, reserva.
O Peso da História
Para muitos, o sismo de 1755 é uma memória de museu. No entanto, Esperancinha recorda que a atividade sísmica destrutiva é uma constante na história do país. O geólogo enumerou uma cronologia assustadora de eventos que causaram morte e destruição em Lisboa: de 1382 a 1969, passando pelos trágicos anos de 1531 e 1761.
“Isto são tudo sismos históricos de que há registos, que causaram danos e mortes na cidade de Lisboa”, sublinhou o especialista, reforçando que o intervalo de acalmia atual não deve ser lido como segurança, mas como acumulação de energia.
A Fragilidade Urbana e Política
A crítica central de Esperancinha recai sobre a inatividade política e a falta de consciência pública. Apesar do conhecimento científico avançado, a adaptação do parque habitacional — especialmente nas zonas antigas de Lisboa e do Algarve — continua a ser lenta ou inexistente.
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Infraestrutura: Grande parte dos edifícios construídos antes das normas de 1983 não possui reforço antissísmico adequado.
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Literacia de Risco: A população desconhece, na sua maioria, os protocolos de emergência (o “Baixar, Proteger, Aguardar”).
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Ordenamento: A pressão imobiliária muitas vezes sobrepõe-se às recomendações de segurança geológica.
Para Além dos Sismos: O Custo do Progresso
Sérgio Esperancinha, conhecido pela sua frontalidade, estende a reflexão a outros temas críticos da geologia moderna. Desde o impacto ambiental da produção de smartphones até à polémica extração de lítio em solo nacional, o geólogo defende que a ciência deve estar no centro da decisão política — algo que, segundo ele, ainda não acontece de forma plena em Portugal.
Estamos Preparados?
A resposta curta, segundo os especialistas, é um inquietante “não”. Enquanto o país foca a sua atenção em crises imediatas, o risco sísmico permanece como uma ameaça invisível sob os nossos pés. A mensagem de Esperancinha é clara: a natureza não negoceia prazos, e a nossa sobrevivência dependerá da capacidade de transformar o alerta em ação preventiva imediata.